É essa a pergunta que está martelando na minha cabeça há cerca de meia hora, feita pela minha amiga Ana Clara, em uma tarde na praia e mais um questionário sobre meu súbito regime. Nós estávamos conversando sobre isso - o que, aliás, eu tenho feito com quase todas as pessoas que conheço desde agosto desse ano - quando ela me perguntou e eu neguei. Agora, reorganizando meus pensamentos e objetivos para os próximos dias eu percebi que, sim, eu viciei em emagrecer. Depois de ficar pesando 47.5 kgs, tive que ganhar mais 3 kilos para ficar no peso ideal, o que vêm me perturbando muito. A consulta médica foi na segunda-feira passada e, com alguns truques que só os que acompanham a Ana sabem, consegui alcançar a meta, mas, inevitavelmente, ganhei 1.7 kgs do meu peso anterior. Quando eu comecei com isso, já vi diferenças na minha cintura e, obviamente, desabei na minha consulta com a psicóloga S. Agora, uma semana depois, me vejo num impasse: perco os quilogramas que adquiri para que conseguisse permissão para entrar na academia e um passaporte para que os meus pais parassem de me perturbar sobre a minha alimentação ou mantenho-os. Vamos colocar isso uma balança, ou melhor, num ringue de boxe: de um lado, uma I magra, com cintura de 60cm e 47.5kg, fraca porém forte de autoconfiança; do outro lado, uma I ainda magra, mas com 4cm a mais de cintura e 49.2 kg, uma garota saudável porém fraca consigo mesma. E ainda há outro fator muito importante, que mexe tanto no meu estado físico quanto mental: a comida. Se eu continuasse com 47.5kgs, talvez não me importasse em ter consumido umas 400kcal de sorvete de baunilha e calda de chocolate caseiros a mais do que meu consumo calórico necessário, já que, mesmo que engordasse, continuaria abaixo do peso, ou seja, bem longe de estar GORDA de fato - o que me assusta mais que o fim-do-mundo, já que isso seria o fim do meu próprio mundo.
O meu fantasma pessoal, aquilo que me assombra, me deixa suando frio só em pensar de estar próximo a mim é ficar gorda novamente, abandonar meus jeans 32. Se eu vejo uma gordurinha, por menor que for, se minhas pernas, por algum motivo, se beijam, ou se meus braços não lembram os de uma modelo, eu já piro. Meu tipo de "piração" é a restrição alimentar, ou seja, fazer uma dieta rápida até que eu me sinta em paz com meu corpo novamente. Não sei o que fazer, sinceramente, estou perdida como uma pomba branca num grupo de urubus. O problema é que eu não sei se consigo mais, mas, ao mesmo tempo, eu sinto aquela fúria, aquela agonia que me dá motivos o suficientes para fazer tudo que for possível ou impossível até que eu atinja a minha glória, o meu orgasmo personalizado (desculpe-me pelo termo). O problema é que eu não consigo achar um equilíbro entre o que eu quero pro meu corpo e o prazer. O que eu quero pro meu corpo é simples: nada que me faça lembrar da pior fase da minha vida, ou seja, a minha vida toda até uns meses atrás. O prazer é o que eu sinto quando eu como algo que eu gosto que, para o meu desespero, é massa e doce, os piores tipos de comida que alguém pode adotar como favoritos, certo? Eu conseguiria deixar de tomar refrigerante, comer carne, etc pela minha vida inteira, mas eu sinto falta de uma massa e um chocolatezinho se eu fico por um certo período de tempo sem comer esse tipo de coisa. Por que será que eu gosto tanto de comida italiana, padarias e festas de aniversário (principalmente de crianças, seres que eu detesto)?
Então, aqui vai a questão a ser respondida com a maior urgência possível: dever ou prazer?
Mas, afinal, porque eu não posso conciliar os dois? Por que eu não posso simplesmente me olhar no espelho e me sentir linda e magra e continuar comendo meu prato de macarrão? Eu já arrumei a solução mais lógica pra isso: entrar na academia. Porém, como sempre, temos um problema - MEDO. Eu tenho medo de ficar com essa ideia devastadora de que, como estou na academia, posso comer o que quiser sem me preocupar, já que vou "queimar" na academia, já que não é bem assim. É, nós queimamos bastante calorias quando praticamos exercício, principalmente com peso, mas, se eu comer enlouquecidamente todo dia eu não vou conseguir eliminar tudo e, guess what, vou voltar ao meu pesadelo, virar meu bicho-papão.
Eu QUERO comer, porque isso significa, de algum modo, liberdade pra mim. É a forma mais clara e pura de manifestação de livre-arbítrio de uma pessoa: escolher o que comer, portanto, comer o que quiser. Eu sei que as pessoas que geralmente buscam esse sentimento saem de casa ou viajam o mundo, mas a única coisa que eu peço é liberdade para comer o que eu quiser. Porém, quando chego a esse ponto da minha reflexão, eu lembro que antes eu era livre e deu no que deu, eu não soube administrar minha liberdade direito. Eu acho que, se eu estivesse abaixo do peso, mesmo com algumas mancadas, eu não chegaria a ponto de estar no caminho pro passado. Mas, estando no peso ideal, eu sinto que o caminho fica mais perto pra mim do que nunca. E o medo continua me consumindo.
Eu quero me sentir bem, bonita, MAGRA, mesmo que isso signifique que eu fique sem saúde, temperamental e só comendo três vezes por dia, em uma quantidade mínima. Eu não me importo com isso, não ligo pras reclamações barulhentas do meu estômago e as reações exageradas do meu cérebro sobre isso, porque, de alguma forma, eu consigo administrar isso de forma de que toda essa dor esteja sendo bem empregada, já que, depois da tempestade vem o arco-íris - e não há nada mais colorido e perfeito do que meu corpo esquelético.
Eu vivo me olhando no espelho, pra ver se estou exagerando, ou se estou certa. Nem sempre consigo a mesma resposta, então nem sempre tomo a mesma decisão. E é por isso que eu me vejo várias e várias vezes por dia e, o pensamento que prevalecer ganha, assim como numa votação. Minha mente é assim, com regime democrata. Todas as opções são consideradas e eu simplesmente tenho que escolher qual será a melhor para administrar minha vida, com um voto por "departamento". Temos o departamento saúde, o departamento psicológico, o departamento estético, o departamento racional e assim vai. Meus departamentos quase sempre levam em conta a justificativa de voto do outro, tanto para apoiar quanto para contestar. Então a opção que ganhar, ganhou. Eu raramente intervenho, porque eu sei que o meu povo (meus departamentos, minha voz interior) sabe o que é melhor pra mim, mesmo que eu não ache isso.
Já fiz uma decisão por agora: vou me olhar no espelho quando for para cama, considerar as minha opções enquanto estiver deitada e aviá-las detalhe por detalhe e, amanhã, antes de trocar de roupa foi me olhar novamente e tomar a decisão final. Até a hora do almoço, pelo menos, quando eu vou olhar de novo e ver se mudo de opinião. Eu sou muito inconstante, a cada minuto eu mudo de lado, mas é só nesse tipo de questão. Estranhamente perturbadora, minha mente não pára por um minuto, ela quer ter um caminho a seguir, um plano a traçar para os próximos dias. Não quer ficar parada numa encruzilhada sem saber se a rua que leva ao norte é a estrada pra felicidade ou para o desespero, e ela só saberá depois do meu singelo teste.
Dependendo da minha breve avaliação, eu vou continuar comendo o que como e, talvez, começar a comer um pouco menos para passar pela fase de "festas" intacta, sem pesar mais de 49.2kgs ou vou começar minha dieta para ver se consigo chegar às festas com menos do que os médicos consideram aceitável. Se tem uma coisa que eu gosto na minha nutricionista é que ela se contentaria se eu estivesse pesando 50kgs na minha consulta da semana passada (mas eu estava com 52.3kgs, por causa dos truques), e as outras médicas em que me consultei ainda considerariam esse peso baixo. Eu adorei essa nutricionista, saí do seu consultório exalando alegria sem nuvens cinzentas e duvidosas pairando sobre minha cabeça; estava com uma energia tão boa que iluminaria todo o mundo, deixando até Ozama Bin Laden (ou seja lá como seu nome é escrito) com tanta harmonia e satisfação que deixaria qualquer plano de guerra pra trás e faria um retiro em um ashram. Ok, posso estar exagerando - e muito -, mas o fato é que aquela consulta me fez muito bem.
Mas se tem uma coisa que eu tenho certeza que vou fazer, independente do resultado, é pegar pesado na academia amanhã e parar de comer chocolate todo dia quando essa barra de 55% cacau acabar, er.
Eu só queria que Deus ouvisse minhas preces implícitas e acabasse com o meu sofrimento. Uma vez pareceu que havia terminado, há uma semana atrás EXATAMENTE, mas, para a minha tristeza, era temporário, ou, melhor, um falso alarme. Esse equilíbrio precisa ser encontrado, eu sei, e isso não é nada fácil, independente no que você esteja tentando encontrá-lo; isso, infelizmente, eu sei também. A única coisa que eu preciso agora é tomar a decisão certa - que, pelo meu departamento racional, seria manter o peso ideal MÍNIMO, que é o meu atual.
Eu preciso desesperadamente de ajuda. E muita.
Nenhum comentário:
Postar um comentário